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CORDEL - ROMANCE POPULAR NORDESTINO

 Autor: Agnaldo Tavares Gomes
                                         (2007)


Amigo leitor eu peço
Por caridade que tenha
Que leia os versos deste
Que escreve à lápis de lenha
Pra compor o cordel
Que a mente aos poucos desenha.

E pra começo de história
Vou contar a do Zé
Fio de dona Constante
E do senhor Rafaé
Zé também conhecido
Como Zé das três muié.

Zé das três muié
Digo ainda ao leitor
Zé das três Marias
Zé dos três amor
Zé tresloucado
Pelas três fulô.

Por que o silêncio leitor
Não entendeu o que eu disse
Preste atenção no que vou:
Zé mesmo assim era triste
Queria casar com as três
Mas o padre não permite.

Disse o padre a Zé Pinto
(sobrenome do pai)::
Só pode casar com uma
E nada de ai, ai, ai.
Zé Pinto ficou zangado
Saiu destino ao cais.

No cartório de modo ao padre
Disse o juiz: não minto
Se quiser casar com as três
Que arrume outros mais Pintos
E o Zé das três muié
Saiu xingando aos gritos.

As Marias todas irmanas
Filhas do mesmo pai
Nascidas na mesma cabana
De onde de lá só sai
Se forem pro mesmo home
Foi feitas pra um só rapaz.

Disse o pai ao Zé Pinto:
O home pra ser home
Tem que dá conta das três
E ai de deixar passar fome!
Tem que ser macho qual eu
Honrar o seu sobrenome

Pois bem amigo leitor
Zé Pinto home direito
Trabaiador que só
Resolveu mostrar o peito
Bater de frente com o véio
Porém com muito respeito.

Um dia de tardezinha
Quando o sol ia ao poente
Zé Pinto armou-se de rifle
Ficou que nem um tenente
Bateu na porta do véio
Que lhe atendeu sorridente.

Foi logo dizendo a que veio:
Vim buscar a Rosinha
Pra mode a gente casar
E amanhã de manhazinha
Pros festejos começar
Vende aí umas vaquinhas.

O véio ficou danado
Passou a mão na cintura
Puxou a peixeira que tinha
Mostrando pro Zé a figura
Do caboclo nordestinho
Que presa pela cultura.

Zé Pinto puxou o rifle
Saltou pra riba do véio
Que de um golpe de vista
Cortou-lhe o rifle no meio
Deixando Zé Pinto tonto
Por um instante alheio.

As Marias assistiam a tudo
Via Zé Pinto caído
E o véio pro riba dizendo:
Nunca vi tanto gemido
Cabra frouxo que nem esse!
Meteu-lhe a mão nos ouvidos.

Quando o véio saltou de riba
Zé Pinto batendo a poeira
Resmungando que nem condenado
Saiu numa carreira
Que nem um bicho indomado
Se arretirando a porteira.

Daquele dia em diante
Zé Pinto ou Zé das muié
Não dava noticia a mingúem
Nem pro seu pai Rafaé
Nem pra sua mãe constante
Quem diria ao cabaré.

Vamos Rosinha se apronte
Arrume sua trouxa vumbora
Antes que o João seu pai
Me mande de novo ir embora
Daí eu não volte mais
Digo por Nossa Senhora.

No instante que o Zé tava à porta
Ouvia uns gritos de longe:
Cabra frouxo sem juízo
Morto vivo desde ontem
Não aprendeu com o castigo
Vai aprender com a morte!

Rosinha tomando à frente
Gritando a seu pai: se acalme!
Deixe dizer a que veio
Depois o senhor se alarme
Faça o que achar mió
Mas antes meu pai se acalme!

Senhor João da Silva
De Aragão de Melo
O senhor sabe a que vim
Não há que fazer mistério
Vim buscar a Rosinha
E junto seu batistério.

Zé Pinto não sei de quê
Sujeito teimoso que só
Só mesmo cortando-lhe o buxo
Fazendo das tripas um nó
Pra vê se o cê se aquete
Sujeito que mato sem dó.

O véio artiou a peixeira
Artura a cabeça do Zé
Partindo pra riba gritando:
Terás aquilo que quer
De hoje em diante o cê
Não quer mais saber de muié.

Rosinha de novo a frente
O véio gritando em volta
Zé Pinto breando todo
As Marias de pé à porta
O povo da vila juntando
Pisando pro riba de bosta.

Numa braçada o véio
Tirou o Rosinha da frente
Meteu a peixeira no Pinto
Que caindo lentamente
Aos braços de sua fulô
Se apagou tristemente.

Rosinha gritando em lágrimas
As outras Marias também:
Zé Pinto Zé Pinto levante!
Levante. Levante meu bem!
Mostre que o cê é home
 Honre o nome que tem.

O pai das Marias num canto
Arrependido do feito:
Nunca matei home frouxo
Esse me foi o primeiro
Tomara que traga sorte
Falo com muito respeito.

Ao colo de Rosinha Zé Pinto
Piscou um olho pra ela
E falou bem de mancinho:
A peixeira acertou a fivela
Tô vivo mais do que vivo
Só ta me doendo a costela

Rosinha aprontou o defunto
Pois sobre uma rede bem véia
Mandou levar a seus pais
Dizendo que foi diarréia
O coitado sofria demais
(A morte foi boa idéia.)

A mando de Rosinha os homens
Levara Zé Pinto aos pais
A mãe dona Constante
De susto deu um desmaio
O pai meio tonto
Quase que cai pra traz.

Dispois que os home se foi
Zé Pinto levantou da rede
Sua mãe desmaio de novo
Seu pai encostou na parede:
Valei-me Nossa Senhora!
O defunto tá vivo, valei-me!

Maria Rosa escondida
Arrumou sua trouxa de noite
Partiu ao encontro do Zé
Com quem era de sorte
Juntar os trapos que tinha
E viver até a morte.

O véio que nunca fez gosto
Não fez não faz nem fará
Zé Pinto foi home frouxo
O mais frouxo do Ceará
Porém casou com a Rosinha
Com quem quis sempre casar.




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